sábado, 23 de maio de 2015

Isabel, a santa...

Uma historinha...
Era uma vez uma menina que se chamava Isabel.
Isabel era uma garota branca que vivia rodeada de outras criancas negras, eram filhas e filhos das empregadas de sua enorme casa.
Ela gostava muito de brincar com essas criancas, tanto que no natal juntou todos os seus brinquedos usados e para orgulho dos pais deu as criancas negras como um sinal de sua bondade....
Certo dia, Isabel resolveu que queria brincar de cavalinho, mas como nao podia ainda subir num cavalo, ela montou em uma das criancas negras e brincou.
Depois ela quis brincar de navio, ai ela montou numa crianca negra em sua banheira e fez de conta que ele era o navio.
As criancas negras comecaram a nao querer mais ir a casa de Isabel brincar com ela e ela ficou sozinha.
Um dia ela saiu pra passear e viu todas as criancas brincando de roda, ela quis entrar na roda e as criancas negras deixaram, sabe porque?
Na roda todas sao iguais.
E assim se deu a libertacao, quando as criancas negras resolveram brincar entre elas e estabeleceram novas regras para as brincadeiras.
Mas voces sabem o que Isabel saiu dizendo?
Que foi ela que inventou a roda!
Poooooode?

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Novela das Mulheres Negras - Capitulo XXX


Claudete de Ogum: a Evangélica
 
O salão de beleza colocava em perspectiva, diferentes visões de mundo para as mulheres negras, que experimentavam e desejavam alterar sua estética, cuidar de si e no tempo que tinham para elas, compartilhar sonhos e fofocas. Tudo isso ao final, contribuía como ensinamentos divididos de vidas comparadas e elas saiam dali muito mais fortalecidas, como quem acaba de ler um bom livro, neste caso, o texto, era a história de suas vidas cotidianas. 

Desta vez uma mulher em particular chamou a atenção das demais, era Claudete, a evangélica. Ela se dizia extremamente religiosa e ia toda semana duas vezes à igreja nos cultos dominicais e nos encontros de estudos bíblicos. Este final de mês, ela estava agitada, pois sua igreja iria receber a visita de um grande bispo e todas as adeptas queriam estar bonitas. 

Nós chamávamos as evangélicas de “crentes” e reconhecíamos qualquer uma delas de longe, pelo jeito de andar e se vestir, sempre com cores desbotadas, neutras, saias longas, nunca calças, roupas fechadas sem decotes, cabelos longos sempre que possível, mas, devo confessar que eu e outras crianças tínhamos muito medo delas.  

Levavam a bíblia nas mãos e conversavam pouco quando estavam no salão de beleza. As mais jovens desejavam casar logo, as mais velhas, casadas, tinham casamentos difíceis com homens violentos, alcoólatras, jogadores, desempregados, homens problemáticos. 

Claudete era crente e tinha muito orgulho disso, ela sabia bem da vida de todas as mulheres da comunidade e pouco comentava. Era casada com Hermógenes, pedreiro e jogador de baralho de todas as tardes na esquina da rua. Trabalhava na casa dos brancos como doméstica e se gabava de ser uma empregada eficiente além de ter, segundo ela, a melhor patroa do mundo branco. O casal tinha dois filhos, dois meninos quase adolescentes e encrenqueiros, que viviam se metendo em confusões no bairro.  

Esta semana a crente foi fazer o cabelo para ficar mais bela durante a visita do bispo. Conceição não marcava com mais ninguém quando fazia o cabelo longo de Claudete, pois dava muito trabalho, por ser comprido e muito cheio. Mas, outras mulheres estavam no salão cuidando de suas coisas e a conversa estava quente em torno de muitos acontecimentos ruins que vinham enlouquecendo a vida delas. 

Os evangélicos, meu caro leitor, se dividem em diversas denominações religiosas que acreditam em Cristo e professam seu retorno, querem converter a todos, não se importando com a religião a que pertencem, mas afirmando que sua fé é a mais verdadeira e que seu segmento é o escolhido por Deus. Portanto, os crentes são diversos e na grande maioria são pessoas que pertenciam a outras religiões e passaram pelo processo de conversão após alguma crise. 

A crise de conversão é um fenômeno comum e um marco importante entre as adeptas, caracteriza-se como o momento em que depois de muitos problemas e aflições o crente aceita aquela forma de religiosidade e seus dogmas, como uma tábua de salvação da alma em conflito. Ao aceitar, tudo em sua vida parece ser resolvido e ele passa a crer que seu sofrimento foi apenas parte de um processo que precisava ser vivido e vencido através da aceitação daquela única forma de religiosidade, sua vida então se torna um relicário, uma experiência divina, uma dádiva. 

O segmento evangélico cresceu no Brasil mais profundamente depois da queda do regime militar e vem crescendo a cada dia com a criação de novas igrejas renovando suas promessas. Estas igrejas se proliferam nos bairros populares das periferias entre a população mais desprovida de acesso a diversas necessidades.  

Os crentes buscam seus fiéis junto aos mais desesperados e sofridos que depositam seu dinheiro e sua fé num “senhor” Jesus que lhes promete amor incondicional, fidelidade, paz e de nunca lhes deixar sozinhos, nem mesmo nos seus piores momentos. Sem dúvida uma promessa poderosa. 

Esse Jesus, no pensamento coletivo, é um homem branco heroico, tem cabelos loiros e longos, os olhos azuis e promete vida eterna a quem o siga e acredite nele. Ter um Senhor como este no imaginário de muitas mulheres negras é como ter o Príncipe Encantado, um Pai Protetor, um Super-herói, ou o Senhor da Casa Grande, mas, um senhor bondoso, generoso que vem sempre em seu socorro e atende a todos os seus desejos.  

Tal senhor se contrapõe a imagem mítica, também bastante venerada pelo crente, de um Diabo/Demônio, geralmente negro, que representa todo mal, as tentações e tudo que signifique pecado, mas ao aceitar os dogmas da igreja a proteção contra tal figura estaria garantida.  

Esta era a magia dessas igrejas e Claudete estava determinada a segui-las em busca de tudo isso, pois acreditava, antes de mais nada, que muitos eram os seus demônios. E, não sei se você sabe meu caro leitor, mas o maior prazer de uma crente é promover a disputa entre Jesus Cristo e o Diabo em seu próprio corpo, tal duelo povoa o imaginário de todas elas e muitas tremem de prazer ao imaginar todos os seus pecados sendo purgados pelo Senhor Jesus, com sua imagem sadomasoquista seminua, presa numa cruz, um homem branco totalmente submisso e devotado a lhes proteger de tudo. 

Acontece que antes de ser evangélica e buscar este Senhor Jesus, Claudete era filha de santo do terreiro de Joana, toda sua família era de Candomblé, ela foi criada desta forma e embora negasse esse pertencimento tudo nela transparecia isso. 

Claudete sabia versos decorados da bíblia cristã e embora fosse semianalfabeta ela tinha orgulho de fazer leituras de tais versículos. Para ela representava muita sabedoria poder ler um livro daquela grossura e com tanto poder, o poder de dizer a única verdade possível e comprovada pela escrita religiosa, bem mais poderosa que a cientifica.  

Ela se envergonhava de ter parentes de Candomblé e de seu passado como Iyaô, tinha aquilo tudo como seu maior pecado e invocava sempre músicas de louvor cada vez que seu pensamento divagava pensando nas festas, ou quando ouvia o estouro de um foguete e seu corpo arrepiava. 

Aliás, meu caro leitor, Claudete muitas vezes deixou seu marido na cama nas noites quentes da Bahia, ao ouvir o som dos atabaques e o estampido dos foguetes, particularmente nas noites dedicadas a Ogum, seu orixá. Seu corpo queimava em febre, tremia, sua mente sumia e ela tinha medo de si mesma. O marido ficava assustado, escondia as facas e facões que houvesse dentro de casa, pois muitas vezes Claudete o ameaçou com a lâmina em punho, tomada por tal espirito, para ela, um espírito Demoníaco extremamente quente e perigoso. 

Quando ia ao mercado, farmácia, escola dos filhos a cada interpelação Claudete invocava um versículo da bíblia e dava lições de moral e discursos infinitos a quem lhe questionasse algo. Quando ia as compras procurava sempre lojas de “irmãos” da sua própria igreja, quando ia a festas eram festas religiosas com outras adeptas e todos os seus momentos de lazer era entre os outros crentes.

Seu marido logo se tornou pastor e prosperou, pois durante o dia pregava a palavra de Deus, a noite realizava cultos e na madrugada quebrava pedras de crack para o comércio local.
 
Mas quando estava sozinha Claudete sofria, pois na sua igreja aprendia que devia odiar o Candomblé, que aquela era a religião do Demônio, que todos os rituais que participou na vida tinham que ser expurgados, que seus parentes não deviam sequer andar a seu lado.

Era no espaço do salão que ela relaxava e quando as mulheres falavam de suas aflições Claudete orientava que colocassem folhas e flores dentro de casa, ou que buscassem água do mar para fazer certos preceitos, orientava chás, banhos, amuletos, falava do que aprendeu enquanto Iyaô por toda sua vida e que fazia parte dela para além da sua afiliação religiosa atual.

Todas gostavam e riam muito com ela, irmã Claudete seguia sempre sua intuição, sua essência verdadeira, com versos decorados da bíblia, ela duelava internamente de espada em punho seus demônios, contidos num corpo delicado e embranquecido a ferro quente, lindamente louca, crente em Jesus, mas dona de um espirito negro forte, feita ainda na barriga da mãe pra Ogum, o senhor dos seus arrepios.

Ogunhê!

sábado, 20 de dezembro de 2014

Futebol X TPM

Estou só no vinho, mas o problema do vinho é que me dá ataque de sinceridade...um perigo!
Começo dizendo que já joguei futebol no ensino médio, um timinho inventado, eu queria que as meninas jogassem e competissem com outros times de meninas.
Os meninos tiravam a maior onda com nosso time, riam de tudo, mas o técnico era um menino que só faltava arrancar os cabelos com nossas jogadas. ...
Na verdade nós nem ouvíamos o que ele dizia, ouvíamos um som como o da professora de Charlie Brown...
Nosso time era um fra-cas-so, mas eu lá nem ai!!! Por isso compreendo nossos jogadores.
E falo como os pernambucanos: "Não importa o que digam os juizes, nosso time é o mais feliz!"
Nós éramos completamente sem noção, chutávamos a bola pra qualquer, qualquer mesmo, lugar e as vezes íamos todas em cima da bola aos griiiitos!
Devo confessar que terminava o jogo morrendo de dor de brriga de tanto rir.
Agora vendo esse time brasileiro, penso que deveríamos ter disputado uma copa também... tanto talento perdido...só ficaram os griitos!

sábado, 25 de outubro de 2014

A madrinha de minha mãe


Quando criança, em Nazaré, nós não sabíamos que éramos de Candomblé (Reis, 2014), toda comunidade vivia daquele jeito. Minha madrinha era rezadeira renomada na cidade, não tinha doente que ela não levantasse do leito de morte. A casa dela era um sobrado perto do Batatan, tinha uma loja onde tudo acontecia. Ás vezes eu ia dormir e o batuque continuava lá, cedinho era acordada pra ir buscar água na fonte, depois da escola ia buscar folhas na beira do rio e quando chegava desfolhava as folhas para os banhos, jogava milho pras galinhas, alimentava os bodes, levava roupa de ração pra lavar no rio e ia sempre cantando em Nagô.
 
Minha madrinha muitas vezes explicava as coisas, falando baixinho, fixando o olhar pra gente aprender, na cozinha tinha sempre comida pro povo da casa e pra quem chegasse, éramos muito pobres mas não havia fome como aqui, criança não passava fome, comíamos tudo que se encontrasse em nosso caminho: jaca, caju, castanha, tomate verde com sal, manga pêca, farinha do mercado, melão de Santo Antonio no caminho do rio, algumas coisas não eram comestíveis, cuspíamos logo fora. Minha madrinha era convidada pra tudo quanto é festa da cidade: casamento, batizado, aliás ela tinha muitos afilhados... e só uma filha que herdou seu santo e eu que herdei os provérbios e as rezas dela, sei todas. Se chamava Durvalina e eu tinha muito orgulho de ser afilhada dela (D. Candida, 2014).
 
Tio Zé Pinto era Ogã da casa e não faltava em nenhuma obrigação. Ele era um homem rico, para nossos padrões, porque ele tinha uma barraca de farinha na feira, tinha carro-de-boi e vendia água pra casa dos brancos. As festas na casa dele varavam a noite e ele mandava matar um boi, era quando toda comunidade comia e levava ainda carne pra casa.
 
Minha madrinha cantava com sua voz rouca e olhava pro céu de olhos fechados tentando lembrar toda melodia em Iorubá, a língua dos nossos antepassados, lembro que ela sempre agradecia a Zambê ao final. Era uma mulher negra, gorda, muito bonita, desejada e tio Zé Pinto era um homem negro, retinto, casado com uma branca metida, mas acho que eles tinham um caso.
 
Eu demorava semanas pra voltar pra casa, preferia ficar na casa de minha madrinha, pois lá ninguém me batia, já em casa era um sapeca Iáiá por qualquer coisa. Em casa as mais velhas eram responsabilizadas pelo que acontecesse com os mais novos e eles sempre aprontavam, minha saída era fugir pra casa de minha madrinha e se  minha mãe fosse me buscar ela não deixava eu ir e dizia: -Deixa a menina Antonia você sabe que ela tem caminho e obrigação aqui com o santo dela.
 
Bastava isso e minha mãe deixava, mudava de idéia e ia conformada, ela sabia que eu estava em boas mãos, as mãos de Durvalina Oyá.
 
O alabê da casa se chamava Zé Reis, mas todos o chamavam de Réis, referência ao dinheiro da época. Seu Zé era tocador esperado em muitas festas da região e minha madrinha às vezes ia com ele em outros Candomblés. Quando ela chegava o couro dobrava, muita gente virava no santo e ela sorria com a mão nas cadeiras, de repente entrava na roda e dançava sorrindo como ninguém. Na sua dança muita gente tonteava, o vento balançava as bandeirolas que enfeitavam a casa e os alabês tocavam com vontade, todos batiam palmas e a festa sempre ficava animada.
 
D. Durvalina de Oyá era mulher negra, rotunda e feiticeira que fazia questão de ninguém esquecê-la.

sábado, 23 de agosto de 2014

Disseram-me que a criança chegou na escola, na semana do dia dos pais, em uma dessas nossas escolas que não querem saber de nada sobre nossas crianças e disse que o pai dela chamava-se "Caboclo", nome comum aqui na Bahia para se referir a alguns homens.
Mas, quando foi interpelada pela professora e pelos colegas, que sabiam que ela não tinha pai e começaram a zombar mesmo dela, chorando ela falou: minha avó tem um Caboclo e ela disse que quem criou todos nós foi ele "Senhor Sultão das Matas", meu pai.
Que pena que nossas escolas não aprendem nada com nossas crianças....
 
 

O Retrato de Dorian Grey

A sexualidade mexe com a cabeça da gente, a dos outros e principalmente a nossa, o que nos assusta acho que é o padrão heteronormativo que nos obriga a acreditar na necessidade de uma definição que vem seguida da necessidade de defendê-la diante das demais. Observo os outros e me observo naquilo que me dá mais prazer na vida e no corpo,... naquilo que implica uma definição sexualizada e de gênero diante das possibilidades de prazer real ou imaginário. Aqueles que se consideram felizes com suas escolhas tendem a querer que os outros também escolham essa forma de felicidade e identificam nas representações estereotipadas do gênero o que melhor poderá lhe satisfazer e qual identidade você apresenta e deve assumir, como fizeram com Dorian. Isso também pode se tornar uma forma de opressão. 

 Acontece que a identidade não é só o que os outros vêem, mas é principalmente como e com o que você se identifica, como num jogo de espelhos. Nem sempre o que você vê é o que você é e nem sempre o que você é apresenta-se visivel aos olhos, nem mesmo aos seus e pior, nem sempre o que você é, é o que gostaria de ser. Acredito que a melhor maneira de deixar alguém feliz é permitir-se ficar bem, diante daquilo com o que ele se identifique naquele momento, até porque a correnteza passa e leva tanta coisa, o tempo é inexorável, as larvas viram casulos e borboletas enfeitam o mundo, principalmente quando livres!
 

domingo, 5 de janeiro de 2014

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS ÁUREAS: A BRANCA


 
Uma mulher branca entrou no salão com sacolas de compras na mão, ela queria fazer o cabelo, queria alisá-lo mais, pois considerava seus cachos desprezíveis, pretendia ir numa festa à noite e alisar o cabelo com ferro quente pareceu ser o método mais rápido e barato naquele momento, sua única preocupação era com o cheiro que deixaria depois.

As mulheres negras ficaram em silêncio esperando a reação de Conceição, será que ela iria aceitar essa tarefa? O salão era frequentado principalmente por mulheres negras, até porque na comunidade não moravam muitas mulheres consideradas brancas, poucas famílias se colocavam neste lugar e poderiam ser vistas como tal.

Para as mulheres que se consideravam brancas também não era fácil lidar com essas diferenças, mesmo morando na mesma rua da comunidade. Elas se sentiam fracassadas e que aquele não deveria ser o seu lugar, então investiam em tudo que podiam para que seus filhos tivessem outras opções. Ao mesmo tempo, elas não conseguiam frequentar as festas do bairro e os demais espaços sociais ali existentes. Iam apenas à Igreja.

Na Igreja rezavam, cantavam e na hora de dar as mãos para o Pai Nosso ou para ‘saudar uns aos outros’, elas saudavam e pareciam realmente acreditar naquilo tudo, mas só lá. As crianças brancas faziam companhia a seus pais e de cedo iam aprendendo com eles a agir da mesma forma.

A mulher branca se chamava Áurea e seu marido trabalhava em uma firma, por isso ela não precisava trabalhar como as demais mulheres, suas amigas eram principalmente outras mulheres brancas da cidade alta, suas primas, irmãs e demais parentes, por essas ela tinha verdadeira admiração. Na comunidade do Barro Vermelho as relações dela era com algumas vizinhas que lhes prestavam pequenos serviços, de costura, de manicure e de faxina.

Ela sabia que era diferente das demais, considerava-se superior às outras mulheres e entendia que sua pele clara lhe conferia tal superioridade, por conta disso tudo que as mulheres negras falavam parecia, do seu ponto de vista, algo que só pertencia a tais mulheres, ela não entendia e não pretendia entender.

Contudo, Áurea afirmava que não percebia que a cor lhe conferia tais privilégios, pois quando ia ao mercado da comunidade todos queriam atende-la, na padaria agiam da mesma forma, na farmácia idem, na escola de seus filhos só recebia elogios, apesar de considerar que aquele não era o seu lugar, pensava que esse tratamento era dispensado a todos, da mesma forma e não acreditava nas histórias de racismo contadas pelas mulheres negras.

Talvez fosse a forma como as negras se vestiam, como arrumavam os cabelos, falavam, agiam. Pensava inclusive que as mulheres negras se faziam de vítimas e que viam racismo e discriminação em tudo, ou pior, que as negras sim é que se auto discriminavam e cometiam ‘racismo ao contrário’ quando apontavam as situações de privilégio que ela vivia.

Sim, meu caro leitor, esse é um mundo difícil para se falar de racismo, não era possível falar a mesma língua, nem se quer entender certas situações. Pois os brancos não acreditam que isso exista, eles não sentem e não veem, embora não se cansem de cometê-lo e os negros sozinhos não conseguirão destruí-lo, pois estamos impregnados de seus efeitos.

Nesse ponto tenho que te explicar que isso não é uma invenção nossa, pois racismo existe desde que o mundo é mundo ele é a convicção sobre a superioridade de determinadas raças, com base em diferentes motivações, em especial as características físicas e outros traços do comportamento humano. É uma opinião não científica sobre a raça humana, apesar de ter sido durante muito tempo reforçado pela ciência. O racismo leva determinados grupos a uma tomada de posição depreciativa e, frequentemente violenta, relativa a outros grupos por essa ideia de hierarquia das raças.

Apesar de atitudes racistas sempre terem existido na humanidade, muitas vezes como reação de defesa de uma comunidade contra a invasão pacífica ou não de outra diferente dela, o fenômeno do racismo se agudizou e na época moderna ganhou novos aspectos, especialmente com a política colonialista das potências europeias.

A crise econômica e a pressão demográfica costumam ser motivo de problemas raciais mais ou menos graves, como sucede na Grã-Bretanha com os imigrantes, na França com os norte-africanos, na Alemanha com os turcos ou na Espanha com a população cigana e os trabalhadores negros ilegais.

O preconceito racial está relacionado com conceitos como homofobia, xenofobia, bullying racista, entre outros muito debatidos na atualidade. Embora não haja nenhuma comprovação de uma determinada raça ser superior ou inferior à outra, pessoas em todo o mundo foram atingidas por grupos que se consideravam superiores.

Historicamente, o racismo foi uma forma de justificar o domínio de determinados povos sobre outros, como aconteceu no período de escravidão, colonialismo e nos genocídios ocorridos ao longo da história. No século XX, algumas formas de racismo como o Nazismo e o Apartheid marcaram a história.

O racismo como componente básico da política de um país, levou a Alemanha nacional-socialista à perseguição e extermínio dos povos judeus, ciganos, eslavos, etc. A intenção dos nazistas era exterminar os judeus, com base em argumentos sobre a superioridade da raça germânica. O antissemitismo levou a uma perseguição desenfreada e exterminação de milhões de judeus e de outros povos, culminando na Segunda Guerra Mundial.

O Apartheid também foi um sistema de segregação da população negra, que vigorou entre 1948 e 1994, comandado pela minoria branca na África do Sul. A política racista do apartheid, pretendia impedir todo o relacionamento entre os indivíduos de "raças" diferentes e submeter a maioria da população a uma reduzida minoria caucasiana.

Então não é uma coisa simples, meu caro leitor, quando falamos de racismo, mesmo da forma como ele acontece no Brasil, nas relações cotidianas, encoberto pelo mito da democracia racial é uma coisa séria e deveria ser tratado com seriedade, pois está sempre relacionado ao poder de uns sobre outros. E muitos não querem ver para não perderem seus privilégios.

Portanto, quando Áurea dizia não se ver como branca e sim como ‘pessoa’, imaginava que nós mulheres negras não éramos ‘pessoa’, pois precisávamos evoluir e nos vermos também da mesma forma. Mas, para sermos essa ‘pessoa’ que a branca imaginava, nossa evolução precisava passar por uma transformação em nossos corpos, mentes e almas, precisávamos nos tornar brancas, isso é racismo, pois jamais seremos brancas e não teríamos que sê-las para sermos ‘pessoa’.

Teríamos que nos vestir como uma pessoa branca, agir, arrumar o cabelo, falar e nos comportarmos como tal, para sermos aceitas, afinal da forma que éramos, agíamos, falávamos e pensávamos isso tudo nos colocava em um lugar diferenciado da maioria das pessoas que ela considerava ‘normais’ e deste outro lugar não havia como não sermos discriminadas, porque fugíamos da norma do que uma ‘pessoa’ deve ser em nossa sociedade, do ponto de vista de Áurea.

O pior foi que muitas mulheres negras acreditavam que a branca estava certa, então passaram a agir, falar, arrumar o cabelo e a se comportar como uma branca, as negras introjetaram o racismo. Imaginavam que com essa estratégia poderiam assim ser tratadas como ‘pessoas’ e não sofreriam discriminação.

Essas não compreendiam porque quando faziam de tudo para parecer uma ‘pessoa’ ainda assim eram maltratadas, desrespeitadas, discriminadas e vistas como coisa? Não viam isso como racismo e buscavam a causa do destrato nelas mesmas.

Pensavam que talvez não estivessem bem arrumadas, ou que agiram, falaram ou se comportaram de forma inadequada, que merecessem tais destratos e se culpabilizavam pelo fato de serem pobres, ou por terem aquele cabelo, aquela pele, que por mais que cuidassem não conseguiriam transformar. Para Áurea algumas mulheres negras até que eram bonitas, exóticas, suas cores fortes, cabelos naturais ao vento, posturas e opiniões polêmicas, inteligentes até.

Mas a maioria se auto discriminava, essa auto discriminação era como uma sabotagem, autofagia, automutilação, um boicote, isso nos foi ensinado ao longo de muitas gerações, aprendemos a não nos vermos como somos a sermos invisíveis e que nosso espelho deveria nos embranquecer e nos mostrar a imagem que a madrasta da Branca de Neve persegue uma imagem que nunca seria nossa verdadeira miragem.

Áurea não compreendia que aprendemos isso com os brancos, pois eles foram bastante eficientes em nos ensinar a não nos vermos como somos a nos odiarmos no que vemos e a nos disfarçarmos naquilo que querem que sejamos. Eficiente estratégia do racismo endógeno, assim um negro aprende a discriminar outros negros e o branco não precisa dizer, nem fazer mais nada, o problema torna-se só nosso e nos torna cada vez mais desunidos.

Mas Áurea adentrou o salão naquele sábado decidida a alisar o cabelo, por isso as mulheres negras se calaram, queriam ouvir suas razões, seu ponto de vista e também não queriam falar de suas histórias diante de alguém que jamais as entenderia. Áurea então perguntou se teria como alisar seu cabelo um pouco mais, com o ferro quente, mas pediu que o ferro estivesse bem limpo, pois ela lavou o cabelo e usou seu melhor shampoo não queria que ficasse com o cheiro do cabelo das outras mulheres, cheiro de couro, segundo ela.

Conceição, com o ferro na mão, vibrou o instrumento no ar e profetizou: “esse ferro é utilizado em cabelos bem mais limpos que o seu, então, por favor, procure outro salão eu é que não vou contaminar meu ferro com suas ideias”.

domingo, 10 de novembro de 2013

AS INTOCÁVEIS

A vida dos brancos é diferente da vida das famílias negras, em muitas coisas, em outras são muito parecidas, muitas vezes não nos conhecemos e, portanto, não sabemos em que diferimos ou em que nos parecemos. Arbitrariamente acreditamos que os brancos têm uma vida melhor, que compartilham ideias comuns, alguns pensam que eles se reúnem para tramar contra os negros, que aproveitam melhor a vida e que provam, comem e saboreiam as melhores coisas do mundo só por serem brancos.

 
Acredito que muitas dessas coisas realmente acontecem, ou que pelo menos, muitos assim agem e fazem acontecer, daí não ser esse um sentimento arbitrário. Nós, pessoas negras trazemos em nossos corpos/pele e espirito, histórias e marcas dessa relação covarde, maléfica e muitas vezes determinante em nossa condição de vida. Experiências que ouvimos contar, presenciamos e até passamos e que nos tornam brancos e negros seres quase intocáveis.

 
Por isso os brancos deveriam entender quando alguém que mora em uma comunidade majoritariamente negra, como a do Barro Vermelho, que vive e se relaciona com as coisas comuns que acontecem às pessoas negras dessa comunidade, compartilham os mesmos sonhos e projetos de superação, de luta pela sobrevivência diária, de fé em divindades, saberes reinventados para driblar as armadilhas impostas pelas relações desiguais, para vencer a ausência de políticas públicas.

 
E mesmo que terminam por compartilhar misérias, infortúnios e vitórias, deveriam compreender como tais pessoas dividem um universo próprio, simbólico, com linguagens para além das barreiras da língua, encruzilhadas onde nos encontramos para entoar canções que dizem respeito a nossos sentimentos mais profundos, nossa “arte”, música, dança, literatura, nossas expressões culturais, representam de diferentes formas nossas histórias e a história dessa relação, são armas contra a discriminação e para a superação imaginária e factual das desigualdades.

 
De tal modo que quando nos colocamos diante dessas artes, as interpretações são diversas, as leituras, são múltiplas, mas de uma coisa sabemos: não há folclore em nenhuma delas.

 
É impressionante como os brancos se dedicam em minimizar essa produção cultural foclorizando-a para servir de produto de exportação, ou para comercializá-la. Outras vezes, na maioria das vezes, tratam de certo modo que transformam aquela produção em algo que lhe sirva de abrigo, renomeando, se apropriando dessa arte como de sua criação e ai investindo e capitalizando-a para obterem, como sempre, lucro e mais valia da produção negra.

 
Acontece que nós negros também nos apropriamos de muita coisa da cultura “branca” reinterpretando e ressiginificando para nossa visão de mundo, a diferença é que isso não gera para nós um valor a mais, lucro, ou seja, verdadeiramente, não nos apropriamos de seus produtos e sim de suas sobras, daquilo que não lhes serve mais, ou que no final acabam por dar lucro a eles mesmos, pois não perdem nada com isso.

 
Pensando assim Conceição manteve-se quase calada naquele sábado. Enquanto fazia o cabelo de algumas mulheres, ela só cantava. O feijão estava no fogo e o cheiro da feijoada se misturava ao de cabelo quente, o dia também estava quente e ela gostaria de estar na praia ao lado de uma cerveja bem gelada.

 
Conceição imaginava que a cerveja era um produto criado pelos brancos, era de origem alemã, então ela pensava que essa foi uma boa criação, uma bebida que se adaptava tão bem ao calor dos trópicos, que não era muito cara, de modo que muitas pessoas poderiam ter acesso a dita cuja. Uma cerveja bem gelada sempre caía bem em dias como aquele, o problema é que muitos homens negros gastavam todo seu salário no consumo desta e de outras bebidas alcoólicas e isso invariavelmente resultava em conflitos nas famílias negras, pois esse era um gasto que muitas não poderiam ter.

 
Mas como viver essa realidade sem uma droga? Ou melhor, como enfrentar um dia atrás do outro sem uma alegria artificial por alguns momentos, fornecida por algo além, algo saboroso, inebriante, que lhe enchia de coragem, sonhos, ilusões? Naquele momento Conceição compreendeu os homens negros e ai ela cantou outra música. Quando cantava sempre tinha um significado, suas canções eram recados, mensagens pra quem entendia seus pensamentos e seu coração.

 
Quando estava triste ela cantava músicas tristes, sua entonação era quase um choro, um lamento, nesse momento ela cantava boleros, Cartola, Pixinguinha, Nelson, Angela Maria. Quando saudosa ela cantava Gonzagão, forrós, Marinês e sua Gente, Dominguinhos. Quando feliz ela cantava sambas Noel, Elza, Dorival cantava e muitas vezes dançava com o ferro de cabelo na mão. Gosto de me lembrar dela assim, porque nesse momento ela me tirava pra dançar, rodopiava e me largava na sala e dizia: samba neguinha! E eu inventava minha dança e todas riam de meus passos desengonçados.

 
Assim nos socializamos nas comunidades negras, sempre ao lado de nossas mais velhas. Quando recebia o primeiro pagamento me mandava ir correndo comprar uma cerveja, bem gelada e todas bebiam, cantavam e contavam seus casos.

 
Dona Ondina estava preocupada com o caso de seu filho menor o Dirceu, ele estava com uma coceira que não passava com nada, depois de amanhecer em frente ao posto médico ela conseguiu uma consulta e descobriu que o menino tinha “Bicho Geográfico”, coisa que se pega em terreno onde tenha outros bichos como gato, cachorro, coisa de menino que brinca na terra. Todas ficaram assustadas, pois onde mais suas crianças iriam brincar? Teriam que aprender a conviver com o Bicho Geográfico, quem sabe assim aprenderiam geografia, mas era preciso tratar da tal enfermidade e foi o que Dona Ondina ensinou a todas.

 
Dona Arminda começou a falar dos seus patrões os “B” da cidade alta, esse sem dúvida era um assunto que todas gostavam, pois compartilhavam experiências comuns. Arminda também era lavadeira e você não tem ideia, meu caro leitor, da ciência que era preciso ter para lavar as roupas dos brancos antes da máquina de lavar. Nessa época a máquina de lavar eram elas, as mulheres negras do Barro Vermelho. Arminda contava que as roupas vinham muito fedorentas, pois ficavam guardadas, misturadas, inclusive com toalhinhas de menstruação das mulheres, pois naquele tempo não havia absorventes.

 
As lavadeiras lavavam tudo, desde pano de chão, de prato, a roupas das mais delicadas e intimas. As toalhas de menstruação eram fervidas com ervas aromáticas e alvejantes naturais que as lavadeiras conheciam, as camisas de linho também eram alvejadas com outras ervas, anis, alfazemas, muitas roupas brancas ficavam quarando ao sol e depois elas levavam para o rio e enxaguavam com bastante água corrente. Depois de todo esse trabalho vinha à fase de engomar a roupa com goma feita bem fininha, daí colocavam pra secar para só depois passar o ferro que era a brasa, pesado e muito quente. Ainda bem que dona Arminda tinha os braços grossos e fortes e suas filhas ajudavam a engomar, os meninos iam entregar as trouxas. Ela tinha quase uma lavanderia em casa.

 
Nesse momento Conceição cantava Clementina “Ensaboa mulata ensaboa...tô ensaboando” e elas brindavam com cerveja. Cora contava das suas idas e vindas nas casas da cidade alta em minha companhia. E eu repassava minhas experiências nas casas dos brancos para as demais crianças do Barro Vermelho, eram como histórias, as crianças queriam saber o que os brancos faziam para ter aqueles cabelos lisinhos? Ou como fazer para ter tantos brinquedos, o que eles comiam, bebiam ou faziam pra se divertir?

 
Sim meu caro leitor, aprendíamos desde cedo a diferenciar a vida dos brancos de nossas vidas, aprendíamos que erámos intocáveis, e eu relatava de forma segura que:

 
“Eles comem comida fraca, arrozinho, macarrão, poucos comem feijão, a carne que eles comem é sempre molinha, nunca comem carne com osso. O peixe quase não tem espinha e a galinha sempre é de granja, nunca de quintal como a nossa.” Eles não comem miúdos, charque, café preto, sempre tem leite e eles comem diariamente queijo, coisa que nós criança do Barro Vermelho só comíamos no natal, quando minha tia fazia um caixa que ela pagava o ano inteiro para comermos um queijo cuia no final do ano, com um prazer inenarrável.

 
“Para cuidar do cabelo elas têm uma infinidade de shampoos, cremes e loções e não precisam passar pelo ferro quente, ele é lisinho assim naturalmente, lavam esse cabelo quase todo dia, mas não adianta muito, pois sempre estão com piolho e minha tia me manda tomar cuidado e não encostar minha cabeça na delas, aliás não posso encostar muita coisa nelas: minha mão, meu pé, meu corpo, somos intocáveis, apenas, olho, reparo e sinto. Um dia uma delas me tocou, pegou minha mão e me levou pra brincar com elas, foi um choque minha pele quente naquela pele fria. Olhei pra minha tia e ia pedir ajuda pelo susto, mas ela balançou a cabeça afirmativamente e me deixou ir com a menina.”

 
No seu quarto “cachinhos dourados” tinha todos os brinquedos possíveis, parecia uma loja, mas o que mais chamou minha atenção foi uma vitrola onde ela colocava discos e ouvíamos músicas: Noel, Cartola, Gonzagão, Pixinguinha, Angela, Elza, ela só não tinha Clementina. Fiquei estarrecida imaginando o que Conceição iria pensar daquilo e cantei, cantei, dancei e tirei “cachinhos dourados” pra dançar, rodopiei com ela na sala e a soltei gritando: dança neguinha!

 
Daí, não vi mais nada, foi só o choro da menina que caiu no chão e Cora me pegando pelo braço e dizendo mais uma vez: eu não te disse pra não tocar nela?
 
Éramos e ainda somos intocáveis.


domingo, 20 de outubro de 2013

A História de como Ossaim cuidou da Epidemia de Febre Tifóide das Mulheres Negras

 As coisas parecem ser muitas vezes sonhos, ilusões, dejávu, premonições que nos chegam de forma simples, nas palavras que quase falamos e vemos brotar da boca de alguém; ao sentir saudade de uma pessoa que surge de repente em sua frente, aparentemente do nada; de visitar novos lugares sabendo exatamente a imagem que surgirá ao dobrar uma esquina; ou provar uma fruta desconhecida e sentir um sabor antigo, bastante conhecido; de sentir aromas que remontam a cenários; de beijar ou transar com alguém que se desejou muito, mas que te toca e acaricia exatamente como sonhastes; de antever mudanças no tempo antes do noticiário; ou, a que mais me aflige, de não gostar de pessoas e coisas antes mesmo de ser apresentado a essas; ou até mesmo o contrário, de amar certas pessoas e coisas muito antes de conhecê-las.
Não sei meu caro leitor, mas isso é coisa constante na vida das mulheres negras, sensações que de tão frequentes não surpreendem, nem incomodam mais, apenas se tornam parte da natureza do ser, que quando sonha, acorda mais preparado para os acontecimentos diários, pois já viveram tais situações de diversas formas enquanto dormiam.

Não saberia que nome dar a essas experiências, mas sei que de tanto ouvi-las, senti-las e percebê-las em mim e em outras pessoas, penso que elas mereceriam um estudo, talvez, ou uma conversa franca mais séria a respeito.

Por outro lado, quando ouço Carmelita contar seus sonhos e acontecimentos dessa natureza, me aproximo dela, fecho os olhos enquanto ela conta e me arrepio invariavelmente diante das sensações que mexem comigo a partir da sua experiência, na verdade, até já preparo meu corpo para essa onda de arrepios.

Carmelita nem sabe disso, ela não é minha amiga, até tenho reservas com relação a ela. Mas quando ela chega no salão eu me aproximo, me calo e escuto sua voz e seus casos. Sua voz por si só já é um encantamento, ela fala baixo, rouco, pausado, suspira em certos momentos e o desfecho dos seus casos não são concretos, pois nos deixam sempre sem saber a que conclusão chegar. Observo que outras mulheres sentem o mesmo que eu quando ela fala, e ficam encabuladas logo em seguida querendo concluir o que ela não explicou direito.

Para você ter uma ideia, meu caro leitor, certa vez Carmelita nos contou que ouviu de outra pessoa, que em sua cidade estava tendo uma onda de Febre Tifoide muito forte, nesse lugar muitas pessoas até tinham morrido de Tifo, mas o mais impressionante é que as pessoas que sobreviveram à febre perderam seus cabelos. As pessoas eram negras, todas negras, mas tinham os cabelos muito lisos e ficaram carecas por um tempo após a febre, depois, quando os cabelos voltaram a nascer, cresceram extremamente crespos e elas tomaram aquilo como um castigo divino.
Daí em diante a discussão crescia entre as mulheres no salão, pois muitas conheciam e afirmavam terem visto casos parecidos, mas ninguém sabia o que significava ou como se dava esse processo, ou mesmo se haveria como revertê-lo. Carmelita afirmava que isso se deu com ela, pois segundo sua mãe ela tinha um cabelo que não dava uma volta, mas depois de sobreviver a Tifo, se transformou numa mulher negra de cabelos crespíssimos.
Enquanto Conceição fazia o cabelo dela ia pensando nos benefícios da Tifo para o seu negócio, afinal de contas se todas elas tivessem o cabelo liso, não precisariam alisá-los. Joanete pensava no que aconteceu com todos os brancos de cabelo liso e que tiveram Tifo, ou será que essa era uma doença só de negros? Cora achava Carmelita mentirosa demais, pois ela conhecia toda sua família e não havia uma pessoa se quer de cabelo liso para comprovar essa transformação.

Mãe Joana ria e dizia que cabelo crespo é que é bom, pois não nega a origem e ainda prova que resistiu a Tifo.  Maria Helena acreditava seriamente na história e contava mais casos a respeito, mas incluía a doença que originou a calvície dos homens (essa depois eu conto). E eu, aprendiz de feiticeira, pensava em descobrir através da ciência o elemento endurecedor de cabelos contidos na Tifo e quem sabe transformá-lo em um spray e borrifar em todos os cabelos lisos que encontrasse pela frente, pois desse modo ajudaria Conceição a fazer mais cabelos crespos.

Por conta desses casos e situações foi que Conceição resolveu comprar um livro que decifrava todos os sonhos. Assim, à medida que as mulheres contavam seus sonhos no salão, ela consultava o livro e dava o veredito dos significados, pois não suportava essas histórias sem um final concreto e feliz.

Mas, teve um caso que ela não encontrou respostas no tal livro, foi um caso contado por Zulmira. Nesse ponto, preciso descrever quem era Zulmira para que você melhor compreenda meu caro leitor. Ela era uma mulher que teve Paralisia Infantil, segundo minha mãe. Uma mulher negra, magra e que por conta da paralisia tinha uma perna mais fininha que a outra. Ela trabalhava como lavadeira e passava pela Rua do Barro Vermelho carregando suas trouxas de roupa sempre mancando, por conta da perna.

Zulmira frequentava o terreiro de Joana, ela era filha de Ossaim e contam que esse orixá recebeu de Olodumaré o segredo das folhas. Ossaim sabia que algumas delas traziam a calma, vigor, outras, a sorte, a glória, ou ainda as doenças, acidentes e a miséria. Ossaim cuidava da saúde de todos através das folhas, mas ele próprio também mancava, ele tinha uma perna só e embora isso não fosse um problema para sua mobilidade, pois ele estava em todos os lugares com o vento, ainda assim muita gente duvidava do seu poder de curar, pois pensavam que ele deveria curar a si mesmo, se realmente fosse um bom curandeiro.

Mas Ossaim sabia que suas limitações de saúde o faziam era muito mais capaz de compreender o sofrimento dos outros, por ele próprio saber conviver com sua doença e esse era seu segredo, um fundamento.

Então, Zulmira de Ossaim ao ouvir a história de Carmelita contou que na verdade não foi a febre que causou a queda de cabelos e sim a vaidade e o desprezo pelos outros negros que havia naquela comunidade, como existe até hoje por parte de alguns brancos. Para corrigir esse problema foi mandado um vento que varreu da cabeça de algumas pessoas os cabelos lisos e trouxe os crespos.

Por conta disso, as mulheres negras tinham a oportunidade de refletir a partir de seus cabelos, de se encontrar para cuidar de si e das outras e de criar penteados revolucionários que expressam a revolução de suas ideias, mas muitas ainda insistem em manterem-se alisadas, para experimentar outras texturas e ampliar seus conhecimentos sobre o olhar do outro a partir das diversas possibilidades de experiências estéticas possíveis. E também, para contribuir com a sustentabilidade de pessoas como Conceição, esse é outro segredo, nós mulheres negras atuamos melhor em rede, um fundamento.

Como você pode ver caro leitor, cada mulher interpreta o que Carmelita diz e ressignifica no seu universo, agora me diga sobre sua experiência, você conheceu alguém que teve Febre Tifóide, dormiu de cabelo liso e acordou com o cabelo crespo?

Ou mesmo alguém de Ossaim, que ao viver a experiência da doença se torna alguém melhor em cuidar dos outros?

Essas eram questões que eu registrava a partir das histórias das mulheres negras daquele salão, pois eu pensava em também escrever meu livro dos sonhos. Um livro diferente do de Conceição, mas um livro para nós mulheres negras, com questões, provérbios, respostas, ensinamentos, conhecimentos e saberes repassados por elas, as mulheres do Barro Vermelho.

sábado, 14 de setembro de 2013

A História de nossas lágrimas

Acho que havia algo de errado com aquela mulher preta...
Andando, correndo pela rua alagada, pulando poças de lama, eu fugia pelo mundo a fora e meus pensamentos não saiam dela. Como pode tratar tão bem àquelas pessoas brancas, que nem são seus filhos e ser tão pouco carinhosa com seus próprios filhos pretos?
 
Ela se chamava Glória e trabalhava como doméstica na casa de uma família da cidade alta, já por muitos anos. Tinha quatro filhos e criava as crianças sozinha.
 
Trabalhava como doméstica e lavadeira nos finais de semana, de vez em quando fazia também faxina em algumas casas chiques do centro. Seus filhos tinham doze, dez e oito anos. Lindas crianças, negras como a noite, abandonadas pelo pai, como a maioria das crianças da Rua do Barro Vermelho.
 
As mães pensavam que os homens não nos faziam falta, só a elas como mulheres, elas sim, podiam chorar e sofrer por eles, não nós. Estavam enganadas, mas não nos consultavam e não podíamos dizer nada, e, ai da criança que reclamasse ou chorasse clamando pelo pai... Essa estava fadada a sofrer bem mais castigos que as outras, por fazê-las lembrar suas faltas.
 
A filha mais velha de Glória chamava-se Margarida e já estava trabalhando como babá na casa de uma família branca, por isso a casa de Glória ficava entregue nas mãos de Helena sua filha do meio, que tomava conta dos irmãos menores Antonio e Augusto, os mabaços.
 
Quando Glória chegava do trabalho cobrava de um tudo de Helena, queria ver tudo arrumado, limpo, deveres de casa feitos, e a menina só tinha dez anos. Brigava, falava por horas das coisas mal feitas e muitas vezes não deixava Helena ir brincar na rua, só por castigo e Helena nem chorava.
 
Na casa dos brancos, Glória não era assim, tinha palavras doces para as crianças e “sim senhora” pros patrões. Cuidava das crianças, contando historinhas, cantando cantigas para ninar seus sonhos, lavava suas roupinhas, corpo branquinho, cabelo loirinho, ria de suas histórias, consolava seus medos, fazia pirão de caldo para amolecer suas comidas, esperava que dormissem para sair, cheirava suas peles, cuidava de seus machucados com bálsamos por ela mesmo preparados e quando adoeciam não saia de seu lado.
 
Dona Glória fazia o cabelo também com Conceição, sempre que lhe sobrava tempo. As mulheres achavam que ela era um exemplo, por criar seus filhos assim na corda curta, sem sair, sem brincar, sem correr, sem cair e sem chorar.
 
Aliás, chorar era um problema para as crianças negras, quando isso acontecia mandavam calar, entupir, engolir, gargalhar, não havia lugar para lágrimas, fraquezas, consolos, ou demonstrações de medo, fragilidades, sonhos, não para nós crianças do Barro Vermelho. As mulheres punham o dedo na boca, olhavam sérias e diziam quase sussurando: calem-se agora!
 
Um dia Dona Glória nos levou na casa de sua patroa, era aniversário de uma das crianças brancas e Dona B convidou os filhos da empregada. Foram muitas recomendações para ter cuidado com o comportamento e ai de nós se algo saísse errado. Lá observamos como Dona Glória era com eles, tão meiga e delicada, simpática e cuidadosa.
 
Em casa, Helena, sua filha, não se conformava, brigou com a mãe e gritou que não era sua escrava, pois nem como empregada era tratada, ela queria saber por que sua mãe não lhe amava?
 
Dona Glória chorou e dessa vez desabafou, dizendo pra filha que a amava muito, mas acreditava que dessa forma dura, também lhe protegia e cuidava. Endurecia, porque assim mais cedo ela amadureceria, pois para ela o mundo das mulheres negras não era o mesmo das meninas brancas.
 
Dona Glória sabia que não teríamos quem nos protegesse se caíssemos, quem nos consolasse se chorássemos, quem nos amparasse se sentíssemos medo. Ela aprendeu assim a ser forte, não demonstrar fragilidade ou carinho, essa era para ela a forma correta de educar uma criança negra e de amar.
 
Por conta disso os meninos eram tratados como homens e as meninas como senhoras, desde muito cedo. Brincar era perda de tempo e cedo aprendíamos a resolver nossos problemas sem ajuda, sozinhas.
 
Chorar era demonstrar a falha do sistema, lágrimas não eram bem vindas, tínhamos que sufocar, engolir, entupir, não reclamar.
 
Helena entendeu, mas não aceitou, enlouqueceu, queria ter o carinho de sua mãe, sentia-se roubada pelas crianças brancas, então deu pra fugir de casa e deixar seus irmãos sozinhos. Corria pela rua, pela feira, mercados, ia às igrejas pedir aos deuses consolo para suas mágoas.
 
Um dia Helena chegou ao terreiro de Joana, calada, cismada, rasgada. Negra, mais negra que nunca, com seu cabelo desgrenhado, com fome, frio, o olhar perdido parado. Fazia muito tempo que ela fugiu, muito tempo que ninguém mais tinha visto a menina, nem sua mãe sabia do seu paradeiro.
 
Então, Mãe Joana a convidou pra entrar, era festa de Ogum e no toque do adarrum Helena caiu e rodou, sorriu, dançou, cantou e nos braços da Iyalorixá, Helena finalmente chorou.

sábado, 3 de agosto de 2013

CABELO OPRIMIDO É TETO PARA O CÉREBRO - ALICE WALKER

alice-walker

Como muitos de vocês devem saber, fui aluna desta faculdade, há muitas luas. Eu me sentava nessas mesmas cadeiras (às vezes ainda com o pijama sob o casaco) e olhava para a luz que entra por estas janelas. Eu ouvia dezenas de palestras encorajadoras e cantei e ouvi música maravilhosa. Acho que sentia que ia voltar para falar deste lado do pódio. Acho que naquele tempo, quando eu estudava aqui, adolescente ainda, eu já pensava no que diria a vocês, hoje.
 
Talvez os surpreenda saber que não pretendo falar (talvez até o período de perguntas e respostas) sobre guerra e paz, economia, racismo ou sexismo, ou sobre os triunfos e atribulações dos negros ou das mulheres. Nem sobre filmes. Embora os mais atentos possam ouvir em minhas palavras a preocupação por alguns desses assuntos, vou falar sobre algo muito mais perto de nós. Vou falar sobre cabelo. Não se preocupem com o estado dos seus cabelos neste momento.
 
Não fiquem alarmados. Não se trata de uma avaliação. Simplesmente quero compartilhar com vocês algumas experiências com nosso amigo cabelo, e espero entreter e divertir a todos.
 
 Durante um longo tempo, desde a primeira infância até a idade adulta crescemos física e espiritualmente (incluindo o intelecto com o espírito), sem que nos demos muito conta do fato. Na verdade, alguns períodos do nosso crescimento são tão confusos, que nem percebemos que se trata de crescimento. Podemos nos sentir hostis, zangados, chorosos ou histéricos, ou deprimidos. Jamais nos ocorre, a não ser que encontremos por acaso um livro ou uma pessoa capaz de explicar, que estamos em processo de mudança, de crescimento espiritual. Sempre que crescemos, sentimos, como a semente nova deve sentir o peso e a inércia da terra, quando procura sair da casca para se transformar numa planta. Geralmente não é uma sensação agradável. Porém, o mais desagradável é não saber o que está acontecendo. Lembro-me das ondas de ansiedade que me envolviam nos diferentes períodos de minha vida, sempre se manifestando por meio de distúrbios físicos (insônia, por exemplo) e como eu ficava assustada, porque não entendia como aquilo era possível.
 
 Com a idade e a experiência, vocês ficarão satisfeitos em saber, o crescimento torna-se um processo consciente e reconhecido. Ainda um pouco assustador, mas pelo menos compreendido. Aqueles longos períodos, quando algo dentro de nós parece estar esperando, contendo a respiração, sem saber qual será o próximo passo, com o tempo transformam-se em períodos esperados, pois enquanto ocorrem, compreendemos que estamos sendo preparados para a próxima fase da nossa vida e que provavelmente vai se revelar um novo nível de personalidade.
 
 Alguns anos atrás passei por um longo período de inquietação, disfarçado em imobilidade. Isto é, isolei-me do grande mundo a favor da paz do meu mundo pessoal, muito menor. Eu me desliguei da televisão e dos jornais (um grande alívio!), dos membros mais perturbadores da minha grande família, e da maioria dos amigos. Era como se eu tivesse chegado a um teto no meu cérebro. E sob esse teto minha mente estava extremamente inquieta, embora tudo em mim estivesse calmo.
 
 Como é comum nesses períodos de introspecção, contei as contas do meu progresso neste mundo. No relacionamento com a família e os antepassados eu agira respeitosamente (nem todos concordarão, acredito); no meu trabalho eu havia feito, usando toda a habilidade de que disponho, tudo que era exigido de mim; no relacionamento com as pessoas com quem convivo diariamente, eu agira com todo amor que podia encontrar no meu íntimo, Eu começava também, finalmente, a reconhecer minha responsabilidade para com a Terra c minha adoração do Universo. O que mais então eu devia fazer? Por que, quando eu meditava e procurava o alçapão de escape no alto do meu cérebro, o qual, nos outros estágios do crescimento, eu sempre tive a sorte de encontrar, só achava agora um teto, como se o caminho para me identificar com o infinito, o caminho que eu costumava trilhar, estivesse selado?
 
Certo dia, depois de ter feito ansiosamente essa pergunta durante um ano, ocorreu-me que, no meu ser físico, havia uma última barreira para minha libertação espiritual, pelo menos naquela fase: meu cabelo.
 
 Não meu amigo cabelo propriamente, pois logo percebi que ele era inocente. O problema era o modo pelo qual eu me relacionava com ele. Eu estava sempre pensando nele. Tanto que, se meu espírito fosse um balão, ansioso para voar e se confundir com o infinito, meu cabelo seria a pedra que o ancoraria à Terra. Compreendi que seria impossível continuar meu desenvolvimento espiritual, impossível o crescimento da minha alma, impossível poder olhar para o Universo e esquecer meu ego completamente nesse olhar (uma das alegrias mais puras!) se continuasse presa a pensamentos sobre meu cabelo. Compreendi de repente porque freiras e monges raspam as cabeças!
 
 Olhei no espelho e comecei a rir de felicidade! Tinha conseguido abrir a pele da semente e estava subindo dentro da terra.
 
 Então comecei as experiências. Durante alguns meses usei longas tranças (era moda entre as mulheres negras na época) feitas com o cabelo de mulheres coreanas. Eu adorava isso. Realizava minha fantasia de ter cabelos longos e dava ao meu cabelo curto e levemente processado (oprimido) a oportunidade de crescer. A jovem que trançava meu cabelo era uma pessoa que eu acabei adorando - uma jovem mãe lutadora; ela e a filha chegavam à minha casa às sete da noite e conversávamos, ouvíamos música, comíamos pizzas ou burritos, enquanto ela trabalhava, até uma ou duas horas da manhã. Eu adorava o artesanato dos desenhos criados por ela para a minha cabeça. (Trabalho de cesteiro! exclamou uma amiga, tocando a teia intrincada na minha cabeça.) Eu adorava sentar entre os joelhos dela como sentava entre os joelhos de minha mãe e de minha irmã enquanto elas trançavam meu cabelo, quando eu era pequena. Eu adorava o fato do meu cabelo crescer forte e saudável sob as "extensões", como eram chamadas as tranças.
 
Eu adorava pagar a uma jovem irmã por um trabalho realmente original e que fazia parte da tradição do penteado dos negros. Eu adorava o fato de não precisar tratar do meu cabelo a não ser com intervalos de dois ou três meses (pela primeira vez na vida eu podia lavar a cabeça todos os dias, se quisesse, e não fazer nada mais). Porém, uma vez ou outra as tranças tinham de ser retiradas (um trabalho de quatro a sete horas) e feitas novamente (mais sete a oito horas); também eu não me esquecia das mulheres coreanas que, de acordo com minha jovem cabeleireira, deixavam crescer o cabelo expressamente para vender. É claro que essa informação me fez pensar (e, sim, me preocupar) sobre os outros aspectos de suas vidas.
 
 Quando meu cabelo atingiu dez centímetros de comprimento, dispensei o cabelo das minhas irmãs coreanas e trancei o meu. Só então renovei o conhecimento com suas características naturais. Descobri que era flexível, macio reagindo quase com sensualidade à umidade. Com as pequenas tranças girando para todos os lados, menos para onde eu queria que virassem, descobri que meu cabelo era voluntarioso, exatamente como eu! Vi que meu amigo cabelo, tendo recuperado vida própria, tinha senso de humor. Descobri que eu gostava dele.
 
 Mais uma vez na frente do espelho, olhei para minha imagem e comecei a rir. Meu cabelo era uma dessas criações estranhas, incríveis, surpreendentes, de parar o tráfego - um pouco parecido com as listras das zebras, com as orelhas do tatu ou os pés azul-elétrico do mergulhão - que o universo cria sem nenhum motivo especial a não ser demonstrar sua imaginação ilimitada. Compreendi que jamais tivera a oportunidade de apreciar o cabelo em sua verdadeira natureza. Descobrir que ele, na verdade, tinha uma natureza própria. Lembrei-me dos anos que passei agüentando cabeleireiros - desde o tempo de minha mãe - que faziam trabalho missionário nos meus cabelos. Eles dominavam, suprimiam, controlavam. Agora, mais ou menos livre, ele ficava todo espetado para todos os lados. Eu telefonava para todos meus amigos no país para relatar as travessuras do meu cabelo. Ele jamais pensava em ficar deitado. Deitar de costas, na posição missionária, não o interessava. Ele cresceu. Ficar curto, cortado quase até a raiz, outra "solução" missionária, também não o interessava. Ele procurava espaços cada vez maiores, mais luz, mais dele mesmo. Ele adorava ser lavado; mas isso era tudo.

Finalmente descobri exatamente o que o cabelo queria: queria crescer, ser ele mesmo, atrair poeira, se esse era seu destino, mas queria ser deixado em paz por todos, incluindo eu mesma, os que não o amavam como ele era. O que acham que aconteceu? (Além disso, agora eu podia, como um bônus adicional, compreender Bob Marley como o místico que suas músicas diziam que era). O teto no alto do meu cérebro abriu-se; mais uma vez minha mente (e meu espírito) podia sair de dentro de mim. Eu não estaria mais presa à imobilidade inquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo.
 
 Essa foi a dádiva do meu crescimento, no meu quadragésimo ano. Isso e saber que enquanto existir alegria na criação haverá sempre novas criações para descobrir, ou redescobrir, e que o melhor lugar para olhar é dentro de nós mesmos. Que a própria morte, sendo parte da vida, deve oferecer pelo menos um momento de prazer.
 
Fiz esta palestra no Dia dos Fundadores, 11 de abril de 1987, no Spelman College, Atlanta

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Para as crianças cientistas que nós fomos


Eu sei que você já foi criança, meu caro leitor, por isso me sinto a vontade para te contar certas coisas. Compartilho com você uma determinada perspectiva de olhar de certa forma, que eu não tinha enquanto as vivia. Agora quando olho pra trás espero encontrar o seu olhar e que as narrativas que faço agora, não sejam tão duras para você da mesma forma que elas realmente foram, afinal de contas são histórias, casos, fatos inventados, ou ouvidos e nesse espaço eu determino o fim. De uma coisa tenho certeza aqueles anos, morando naquela casa, com aquele salão de beleza e essas mulheres negras todas, marcaram minha vida e minha visão de mundo se expandiu.

Para vocês terem uma ideia, era véspera de carnaval e o movimento no salão iria aumentar, porque as mulheres queriam se enfeitar para sair em seus blocos de samba, afoxés, bloco afro, bloco de índio ou simplesmente ir atrás de um cordão ou do Jegue de Cueca. Conceição sabia disso, pois muitas já tinham feito reserva de horário e encomendado os penteados. Ela estava agitada e acordou cedo, pegou uma vassoura e saiu praguejando dizendo que hoje ia ter...

Começou a varrer a calçada resmungando baixinho. Bom, nesse ponto é importante entender que a temperatura dessas mulheres pode ser medida, e quando elas acordam como Conceição acordou hoje é porque as coisas vão esquentar, isso as crianças sentem. Há um movimento diferente, o clima fica meio parado, um silêncio estranho onde só se ouve o resmungo delas. Então, na nossa concepção de crianças era o momento de cair fora, de ir brincar bem longe delas, pois provavelmente de agora em diante tudo que desse errado era nossa culpa.

Tratei logo de me arrumar e ir pra rua buscar novidade. Fui à casa de Marinalva e chamei ela para correr pícula. Ela veio meio desengonçada, porque, eu já falei pra vocês de Marinalva, ela é assim mesmo, veste roupas dos irmãos maiores, ou das doações dos brancos, mija na cama, não gosta de pentear o cabelo, daí a coitadinha anda assim. Eu gosto dela assim, porque a faço de minha boneca, ai eu penteio seu cabelo, passo batom, pinto suas unhas, às vezes ela não me deixa pentear o cabelo, então eu amarro um lenço. Enquanto isso, vamos conversando como gente grande. Marinalva fica parecendo uma mãe de santo, só dá ordens.

Conceição estava agitada porque muitas mulheres não queriam espichar o cabelo, o que elas queriam era fazer tranças e penteados em nagô. Segundo elas, para brincar os dias de carnaval era melhor e mais fácil de arrumar. Mas, para Conceição era mais trabalho, ter que escolher os penteados, trançar cabeça por cabeça. As que iam aos blocos de samba queriam algo prático e que o cabelo não ficasse caindo na nuca; as que iam ao bloco afro queriam tranças e penteados mirabolantes, diferentes umas das outras e com fitinhas nas cores do pan-africanismo; as que iam a bloco de reggae queriam tranças soltinhas e cabelo rastafári; as que iam aos afoxés queriam turbantes estratosféricos, mas as mais engraçadas eram as que iam a blocos de índio, pois estas queriam o cabelo alisado e de franja.

Eu concordava com elas, naquela época, afinal carnaval era fantasia e eu não ia querer sair de mim mesma, então eu também sairia de índia, se pudesse. Joanete era uma dessas, ela queria o cabelo bem alisado para brincar no Apache do Tororó. Eu pedi várias vezes a Conceição pra alisar meu cabelo e fazer uma franja também, as mulheres riram e Conceição ficou mais irritada ainda e me mandou ir comprar fitas nas cores do pan-africanismo. Agora meu caro leitor, que cores são essas e como eu iria saber? Ela não me deu tempo de perguntar...

E como vocês já sabem, terei que explicar agora o que é Pan-africanismo. Vocês têm sorte de ter alguém como eu, que explico as coisas, pois na minha época não havia internet e eu aprendi apanhando, literalmente, sonhando, vendo na TV ou adivinhando.

O Pan-africanismo é uma ideologia que propõe a união de todos os povos da África como forma de potencializar a voz do continente no contexto internacional. Essa ideia se tornou bastante popular entre as elites africanas ao longo das lutas pela independência, na segunda metade do século XX. Eles propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias, inclusive entre nós da diáspora. Valorizavam as religiões ancestrais e defendiam o uso das línguas africanas que foram proibidas pelos europeus.

Essa ideologia foi desenvolvida principalmente pelos africanos na diáspora americana, particularmente William Du Bois e Marcus Garvey, entre outros, e posteriormente foi defendida por africanos como Kwame Nkrumah e no Brasil foi bastante divulgada por Abdias do Nascimento.

Você nem imaginava caro leitor, que na cabeça dessas mulheres negras houvesse tantas histórias hein! É coisa pra contar! Acho que elas também não sabiam, mas mesmo assim era o que elas queriam ser nos dias de carnaval. As cores são: o amarelo, verde, vermelho e o preto, cada uma com seus significados e estão representadas na maioria das bandeiras dos países africanos.

Agora lá estava eu em frente a tantas cores de fita para escolher as do pan-africanismo, então fui escolhendo as que mais gostava e Marinalva dando a opinião dela também. Eu queria cortar o cabelo, fazer uma franja bem bonita, pois na comunidade do Barro Vermelho só uma menina branca tinha franja, Alice, ela e as bonecas brancas é claro. Meu tio ouviu minha conversa e deu o maior apoio: “Corta a franja menina, vai ficar linda, invade o mundo de Alice!”

Bom, com o apoio da família fica bem mais fácil né? Mas ao chegar ao salão Cora estava se arrumando para sair e me levou com ela. Fomos à casa da ex-patroa, uma branca da Barra Avenida. Toda vez que ela me levava com ela eu já sabia que a mulher iria me perguntar o que eu queria ser quando crescesse. Porque será que os brancos se preocupam tanto com isso?

Dessa vez minha resposta estava pronta e definida, essa era mesmo uma boa pergunta por que me fez pensar realmente em crescer e ser alguém diferente, mas quem? Dona“B” fez a pergunta e eu respondi na lata: “Quero ser cientista louca”, minha tia se assustou, mas Dona “B” caiu na risada aos montes e disse: “Louca tudo bem, mas cientista que absurdo!”. Aí, meu caro leitor, Dona “B” conhecia Cora e não devia ter provocado, ela não admitia esse tipo de coisa, imagine a “B” me discriminando.

Cora tirou dos cachorros e disse: ”Porque ela não pode ser cientista? Melhor a senhora cuidar dos seus filhos ignorantes e do seu marido chifrudo, ela estuda, gosta de saber coisas e tem a tia dela aqui pra trabalhar pra gente como a senhora, só pra fazer dela uma cientista, é porque ela é negra? A senhora é racista e eu não venho mais aqui...e saiu batendo a porta e me esticando”.

Dona“B” foi atrás de Cora, pediu desculpas, que não era isso, nem aquilo. Enfim, voltei pra casa decidida a ser mesmo “cientista louca” e Cora ainda tentou me convencer a tirar o “louca” e a ser só “cientista”. Mas eu achava só“cientista” tão chato, bom mesmo é ser das loucas e inventar coisas que ninguém inventaria: remédios, máquinas, aparelhos, receitas... “Já imaginou tia eu poderia fazer a branca entortar a língua toda vez que me discriminasse?” E Cora dizia:”Ai só feitiço menina, só feitiço...”

Voltamos à comunidade e o furdunço continuava, agora porque comprei as cores erradas das fitas e Conceição estava me caçando... Como eu não sabia fui ao quarto e cortei o cabelo, finalmente teria minha franja, mas o cabelo!!!!

Não vou explicar a vocês o que acontece com nossos cabelos crespos, creio que vocês desconfiam e muitos já sabem, mas uma coisa com certeza que eles têm é identidade e eles não gostam de franja, logo de cara percebi que teria que dar um jeito pra abaixar o cabelo, pois a franja não se formou.

Cora chegou ao salão já contando a história da casa de Dona “B”, as mulheres riram e falavam que eu realmente levava jeito de “cientista louca”, mas louca mesmo, pois vivia tentando chocar ovo gelado, ressuscitar lagartixa, fazendo remédio de folha, criando caranguejo de coleira, cantando pra passarinho, dando água com açúcar a todo mundo. Nessa hora Maria Helena me olhou dos pés a cabeça, com seu exame de Gêge e definiu: “Cientista talvez, mas feiticeira com certeza e das boas!” Todas riram muito, menos Conceição.
 
Então pedi a Conceição, mais uma vez, pra alisar meu cabelo, “minha franja deu errado tia”, mas daí em diante não vi mais nada, alguém me sacudiu, me bateu, gritou comigo dizendo: “Você é louca, é louca? Quais as cores do pan-africanismo? E eu respondi: “Não tia, louca não, só quero ser cientista”.